sábado, 7 de Junho de 2008

Capitulo IV: Chegou a vez de Trabalhar (1936-1947) (1/03)


"Nunca digas ao patrão ou ao teu encarregado “não sei” mas sim “vou experimentar fazer”


Firmas onde trabalhei

Foi na IMPEX Ldª cita na RUA DA EMENDA, em LISBOA, que iniciei os meus trabalhos de escritório. O patrão de nacionalidade polaca, JACOB RAMBIZEWSKY de nome, quando meu pai lhe foi falar, acertou-se pagar-me 70$00 mensais passando pouco depois para uma centena. Trava-se de uma firma de representações de preservativos (hoje com a "Sida" enriqueceria) - uns caros o "Supergold" em caixinhas de cartão dourado e outros, denominados "U" eram embalados em cartuchos de papel pardo e vendidos às grosas. Tinha também um bom stock de bujigangas para senhoras: caixas de pó-de-arroz, caixas poligonais feitas de espelhos, (quando recebi o meu primeiro ordenado minha mãe quis que oferecesse à minha Avó materna uma dessas caixinhas espelhadas), broches, colares, etc. Fornecia também a arquitetos e engenheiros civis revistas da especialidade (que eu levava a personalidades como COTINELI TELMO e outros).

À esposa MADI DAVI RAMBIZEWSKY levava eu a sua casa (RUA ALEXANDRE HERCULANO) volumes de compras. Na mesma casa da IMPEX havia noutras salas uma simpática decoradora alemã MAY VERA LEROY com uma clientela muito aristocrática, vendendo modas e mobiliário de salão. Desenhei-lhe cadeiras por originais fotográficos. Uma sua modesta empregada, da minha idade, ADÉLIA MONTEIRO de nome, era uma assidua leitora da revista "Guitarra de Portugal". Lembro-me duns dos fados começar assim:

"A gatarrada infernal

Não me deixa socegado,

Foi montar seu arraial

Em cima do meu telhado!"

Outro fado era sobre um ralaça que tinha inventado um máquina que tudo fazia, bastando carregar apenas num botão! Pediu a outro ralaça para ser seu sócio. Este recusou dizendo dar muito trabalho o carregar no botão! Quando saí da IMPEX, enchi-me de coragem e escrevi a minha primeira dclaração d'amor a essa ex-colega. Até hoje ainda não tive coragem de lá ir saber a resposta! Nas horas vagas ia desenhando bicharada em cadernos de papel almaço. Tive também a oportunidade de mandar vir de uma livraria de PARIS, a 4cts o franco, o meu primeiro grande livro de animais, cujo anúncio vira num velho número do "Lectures pour Tous", tratava-se de "Les Animaux vivants du Monde", na época considerada a melhor obra de divulgação zoológica. Comprei apenas o volume dos mamíferos (um fascículo por mês).

Nessa ocasião ainda havia galegos (os chamados "moço de fretes") a fazerem pequenos e grandes transportes. Ao começo da RUA DA EMENDA encontrava-se sempre um que esperava dormitando apoiado com a corda do seu ofício, num gancho pregado na parede. Utilizei-o várias vezes a pedido do patrão. No caminho para a escola (BAIRRO DE S. TOMÈ) outros andavam com uma típica bilha às costas, vendendo água aos moradores do bairro com seu apregoado "Aaaauuu! Aaaauuu!".

Do meu ordenado retinha mensalmente 20$00, que me dava para comprar mensalmente por 6$00 uma revista do Jardim Zoológico de Londres "ZOO, Animal and Zoo Magazine", os restantes 4$00 davam para ir quinzenalmente ao cinema (tinha próximo de casa o "Max Cine" e o "Cinema Império (ex-Pathé"), onde filmes da SHIRLEY TEMPLE, do TARZAN, Bucha e Estica, etc.) me deliciavam cinefilamente.

Uma das lições que aprendi com o meu polaco patrão era que a honestidade poder-me-ia ser prejudicial! Certa vez deu-me dinheiro para arranjar um taxi quando fui buscar uma pesada encomenda aos correios da RUA DA PALMA. Como aguentasse o peso do volume, resolvi regressar de elétrico indo depois do LARGO DE CAMÕES ao escritório (RUA DA EMENDA), poupei-lhe algumas dezenas de escudos que honestamente lhe entreguei. Daí por diante, mesmo que o peso fosse maior, só me dava a quantia necessária para o eléctrico! Fiquei a pensar que se tivesse guardado para mim "desonestamente" a diferença do pagamento do táxi e do eléctrico, não teria vindo a ser fisicamente prejudicado!

A minha hora de saída nem sempre era respeitada, no meu horário das 9 às 18 horas. Com o ir jantar a casa de elétrico e depois ir a pé da RUA MORAIS SOARES ao CASTELO (via CALÇADA DO POÇO DOS MOUROS, PENHA DE FRANÇA, GRAÇA e S.TOMÉ, três quartos de hora a caminhar) via-me aflito para não chegar tarde às aulas. Assim em Outubro de l937 (dezasseis anos de idade), no mesmo ano em que comecei a trabalhar, demiti-me. Apesar do patrão ter dito a meu pai que depois de algum tempo de trabalho me passaria a dar 100$00 de ordenado apenas me aumentou de 70 para 75$00 e ainda fui admoestado por não lhe ter agradecido esse aumento! Desculpei-me "dizendo que por ter sido tão pouco não tinha dado por ele!"

Continua...

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sábado, 17 de Maio de 2008

Capítulo III: A Vida Mudou mesmo (2/02)

Nas actividades extra-aulas coleccionava- se e permutava-se selos (ainda tenho algumas raridades na colecção, arranjadas nessa altura), soldados de chumbo e mais modestamente de papel (estes davam-me uma pequena fonte de receitas, fazendo-os para os meus colegas).

Colecções a que actualmente chamam “cromos” e se vendem sem rebuçados, eram nessa época vendidos a tostão cada um mas se fosse de figura dupla o rebuçado tinham a forma dum apito funcional custando 15 centavos. Essas colecções versavam sobre uniformes militares à escala mundial, jogadores de futebol (do tempo do PINGA pingava e SOEIRO, suava), apareciam também bicharada, mapas, cenas de escutismo (estas em bonecos de estampar com cuspo). As actividades recreativas eram executadas no largo, jogando a rolha, campeonatos de peão (robusto objecto de madeira com um aguçado bico metãlico e que era posto a rodar por um grosso cordão que se fazia passando cordéis por um carro-de-linhas vazio com 4 pregos num dos topos). Jogava-se também com tampas de caixas de fósforos e botões (estes arrancados ao próprio vestuário do jogador), campeonatos de berlindes (esferas de vidro das garrafas de pirolitos (bebida hoje desaparecida) e que eram apanhados revertendo a favor dos utentes de lindas esferas grandes e multi cores que se designavam por "abafadores". Os arredores da escola eram frequentados por uma "fauna" especial de vendilhões que, com roletas, vendiam barquilhos no tempo seco e, no inverno, pequenas quantidades de arroz doce, também se vendiam frágeis esferas de vidro com coloridos líquidos açucarados que se absorviam com uma pipeta especial, depois, a pedido do vendedor, devolvíamos tais recipientes para ser utilizados e vendidos de novo. Uma velhota vendia pedaços de alfarroba, de vagens escuras que nos deliciavam como se chocolates fossem.

No que respeita a contínuos havia um pançudo reformado da guarda republicana de saliente barriga e cuja tensão arterial aumentava quando os alunos, apanhando-o distraído, pegavam nas beatas que guardava na gaveta da sua secretária e com cuspo as atiravam para o teto que ficava ornado com curtas estalactites nicotíticas. Gabava-se de saber responder a todas as perguntas, dizendo sempre "ou é terra ou filho da terra". Havia dois outros contínuos, cujos apelidos deram para um dos alunos, poeta nato RUI GOMES FURTADO DOS SANTOS, inventar o seguinte poema:

PAULINO sem pau é LINO

LINO com pau é PAULINO

Tirando o pau ao PAULINO

Fica o PAULINO sem pau!

No que respeita aos meus progressos escolares, no primeiro ano chumbei em matemática e, com o horário de ter uma disciplina no primeiro ano e as restantes no segundo, passei a ter algumas horas de intervalo entre algumas disciplinas. Pelas escadas da rua e a MOURARIA com facilidade punha-me no CHIADO e ia à BIBLIOTECA NACIONAL onde, superiormente autorizado, passei a consultar, desenhando algumas figuras de animais de enciclopédias como o"LELLO UNIVERSAL", "LAROUSSE DO SEC. XX", "Enciclopedia ESPASA", etc. Passei a familiarizar-me com nomes e figuras de Acanthoglossus, Lithocranius, Ceratorhinus, Acrocordia, etc.

Desenhos de animais copiados de Enciclopédias


O pouco que o francês e inglês me instruía, abriu-me um mundo novo além das lusas revistas e livros que lia. Os alfarrabistas então pulavam mais do que hoje na capital.
Tiveram-me como freguês assíduo de velhas revistas ("Je sais tout", "Lectures pour tous", "La Science et la Vie", "Eu sei tudo"," The Illustrated London News", etc. Por vezes era meu pai que me oferecia, comprando-os com algum sacrifício, livros em 2ª mão de bicharada bem ilustrados (grande parte desses livros e recortes de revistas ainda se encontram na minha biblioteca particular).


Uma vez apresentando-me sem gravata, o porteiro proibiu-me a entrada, nessa altura entrou um militar fardado, sem mostrar ter tal acessório pescoçal, e eu disse ao porteiro. "Porque não posso entrar e aquele senhor entra mesmo sem gravata?"



Final Capitulo III

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sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Capítulo III: A Vida Mudou mesmo (1/02)

" Muita coisa da nossa VIDA a que não ligamos importância e o
o tempo nos faz esquecer, quando pensamos no nosso passado surpreendentemente
volta-nos à memória"


No ano em fazia o meu décimo aniversário ingressei na ESCOLA COMERCIAL DE PATRÍCIO PRAZERES, um ano depois de meu irmão (ele era o "125" e eu o "128").

Ao iniciar a minha actividade escolar onde já não vestia bibe para ir à escola nem minha mãe diáriamente nos levava e trazia para casa, meu irmão e eu fomos convocados por nosso pai para uma reunião. Começámos por ouvir uma preleção sobre tabaco pois iriamos estar num meio em que nos quereriam convencer que para sermos "homens" teriamos de nos iniciar na prática tabagista própria de tal "estádio". Começou por realçar o prejuizo para a sua economia financeira doméstica que tal vício acarreteria pois começariamos por fumar a marca "se me dão"e acabariamos por ter de pagar bem a marca seguinte: "se te dou"! Nada nos disse sobre o fazer mal à saude pois nessa época o tabaco ainda não tinha sido incriminado de cancerisar nossos pulmões!

Conhecendo bem o rifão de "bem préga Frei TOMÁS, faz o que ele diz e não o que ele faz"e sabendo por experiência própria que o "fruto proibido é o mais apetecido", meu pai autorizou-nos aí de viva voz a fumarmos na sua ausência e presença, aconselhando-nos porém a tal não fazer e reforçou o seu ponto de vista com o seu exemplo da a partir daí nunca mais sua boca fumegaria, promessa que cumpriu durante o resto de sua centenária existência. Paradoxalmente, autorizados paternalmente a fumar desde os onze/doze anos, nunca o vício da fumegante e nicotinada chupeta em nós se arregou!

Meu irmão ainda apanhou as aulas de inglês e francês no primeiro ano mas trocavam tudo que lhes ensinavam, dizendo "yes" quando falavam a lingua de VOLTAIRE e "oui" na de SHAKESPEARE! No ano seguinte, quando eu entrei modificaram os programas havendo no primeiro ano só francês e no segundo as duas linguas. A escola era um velho edifício, ex-escola primária, no LARGO MENDONÇA E COSTA, fazendo a ligação do CASTELO ao MIRADOURO DE SANTA LUZIA

Perto dum presídio (este alguns anos depois transformou-.se no "CENTRO DE ESTUDOS JUDICIÁRIOS" onde minha filha viria a estudar bastantes anos depois para poder julgar os outros), na via publica os alunos colhiam para comer ginginhas à pedrada nas árvores de sombra do largo quando a polícia (o "xui") não estava presente. Apesar dos avisos ("cuidado com os xuis") alguns eram caçados e levados em grande choradeira para a esquadra.

Lembro-me que numa das salas de aula havia um grande mapa histórico com a legenda "La retraite des dix mille" que a minha quase total ignorância do actual gaulês achava ridículo mostrarem num mapa uma "retrete" a ser usada por tanta gente!

No meu primeiro ano lectivo a escola levou-nos a visitar didaticamente os locais onde se faziam selos e moedas, fósforos em caixa (na altura não se tinham inventado ainda as carteiras), alguns museus e, sempre com colegas. Fomos examinados num CENTRO OFICIAL DE ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL. Aí mostrei ser bom em desenho e. por incrível que pareça, fui considerado optimo em mecânica! Num teste desmancharam uma maquineta de alavancas e manivelas à minha frente e eu tive de a montar em seguida mas "sobejou" uma inexplicável peça que não consegui descobrir onde colocá-la! O encarregado apareceu, deu à manivela, viu que as alavancas funcionavam, tomou nota do tempo dispendido e … considerou-me um mecânico excepcional (entretanto eu sorrateiramente resolvi o intricado problema de onde colocar a enigmática peça guardando-a no bolso do meu calção!).
Na escola tínhamos vários tipos de professores:

Um bem nutrido esposa dum bem conhecido negociante de lotaria ("Quereis dinheiro jogai no Gama" diziam os anuncios nos jornais), ensinava-nos a língua pátria e com quem embrirrasse nunca mais deixaria de ser seu aluno sempre repetindo o mesmo ano! Outra magrita e airosa, a de matemática, era utente de mistinguéticos membros ambulatórios, que sabidos alunos seus contemplavam deixando cair lápis e canetas no chão para de baixo-a-cima contemplarem tais torneados apêndices que finíssimas e sedosas meias subinvisíveis realçavam! Por ter "inconscientemente" falsificado a sua rubrica seguida da frase "vinte valores", ela algum tempo depois, por acaso, descobriu tal facto, e convencida de ter sido escrito por ela, me fez passar para o segundo ano da para mim detestável disciplina (mal sabia eu que meus filhos herdariam essa alergia à matemática).

Outra mestra, esta com óculos bem visíveis, ensináva-nos francês, entrando sempre com aprumo nas aulas e um "assiez-vous, s'il vous plaît" esteriotipado nos lábios (ao contrário do professor de inglês que pela sua magreza era cognominado de "Chalet d'ossos" e que apenas sussurrava "set down".


Professores da Escola comercial, em III.1938, caricaturados por VASCO VARATOJO:

A- Director FRANCISCO MIRANDA,
B- CATARINA NUNES,
C- AURÉLIO GONÇALVES,
D- MONTEIRO JR.,
E- VERGÍLIO COUTO,
F- JACOBETTY ROSA,
G- VALENTIM JR.,
H-AGOSTINHO DE SOUSA,
I- HERMINIO PAVEIA,
J - JÚLIA SILVEIRA RAMOS.

Nas aulas de francês ensinavam-nos a pronunciar o "u" pondo toda a turma a uivar, na de inglês o "three" transformava-nos em grilos que mudassem o "cri cri" em "srisrisri", Também nos admirámos que em francês o nosso "pescoço" era dito "cou" (lendo-se "cu") palavra íntima que se tornava obscena quando dita em público em vez de "rabo" ou "trazeiro"!

Com o tempo nas aulas de línguas estrangeiras eramos considerados belíssimos e bem comportados e exemplares, quando passávamos a saber de cór e salteado " bal, carnival, Nepal, chacal." e "beef, calf, elf, half, hife, life, self, shelf, thief, wife, wolf,!

Um ano lectivo depois nossa escola mudou-se para um grande edifício na RUA DO CASTELO (ex-escola feminina) em frente de uma escadaria pública que nos levava ao BAIRRO DA MOURARIA. Aí uma colega da minha idade apaixonou-se de mim (DEOLINDA TRINDADE MOURÃO), e passei a ser, quando ela subia as escadas para as aulas, o único a poder estar na base das escadas contemplando a sua subida às aulas.

Nossa escola passou a ficar perto de outra também comercial que por vezes nos hostilizavam, chamando-nos "Escola comercial de putas e paneleiros" e nós chamávamos à deles "Éguas, cavalos, vacas e bois".

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segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Capitulo II: A Vida começa a Mudar (4/04)

Certa noite meu sono foi interrompido por esse mais jovem parente que muito aflito e como íntegra e boa pessoa que era e ainda é, achou por bem retirar-me dos braços de Morfeu ao verificar que o chalet vizinho – uma das célebres casas do MONTEIRO DOS MILHÕES (ricaço ciêntista, conquilogista e também coleccionador e estudioso de insectos) perigava com um surto de incêndio na garagem da dita.


O incêndio na garagem do MONTEIRO DOS MILHÕES

Mercê do sacrifício dos "Soldados da Paz", apenas uns mostruários de pentes fabricados com os ornamentos que tão boa fama dão aos bovinos, e parece que uns objectos de celulóide (os antecessores do então ainda não inventado plástico), foram pasto do apetite pirófago do acidente. Como nessa época ainda estávamos longe dos hoje curriqueiros atentados bombistas, o incêndio foi considerado acidental ou qualquer descuido do utente da garagem. Vi ainda meio ensonado, nosso quintal escurecido pela fumarada colorida das faúlhas, os bombeiros regando tudo, a vizinhança (a tal família PINTO) chorando agarrada ao meu entristecido avô e companhia! Que poderia fazer eu em pijama no local da tragédia que não fosse aumentar o pranto carpideiro já em acção?

Subitamente optei por mais uma sensata resolução: meti-me de novo na cama, pedi encarecidamente a meu primo que por nada deste mundo se esquecesse de me acordar novamente se nossa casa resolvesse consolidarizar-se com a vizinha, tornando-se também pasto das chamas. Depois de meu primo me garantir acordar-me segunda vez, virei-me para o outro lado, retomei o tão estranhamente interrompido sono e... quando no dia seguinte acordei só os escombros da vizinha garagem mostravam ainda uns fumegantes pontos de interrogação serpenteando em direcção a celestiais alturas. Com gravura de formato mínimo a embelezar a notícia do acidente que meu sono interrompera, teve honras de contribuir para o encher duma página do matutino que levou a notícia à área lisboeta, resto do país e estrangeiro ficando para a história um registo "ad seculorum".

Lembro-me que eu e minha prima fizemos cada um o resumo de uma das aventuras publicadas nuns opusculos que se compravam na época intitulados "TEXAS JACK – o Terror dos índios", em que a juventude de então se deliciava com as lutas de ocupação dos "rostos pálidos" (os bons) e os "pele vermelhas" (os maus) que defendiam os seus territórios da cobiça dos europeus. Outras aventuras também publicadas e que líamos eram "As aventuras do CAPITÃO MORGAN" com cenas heróicas de pirataria no roubo de tesouros saqueados nas Américas, escondidos pelos heróicos piratas (" Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão"). Tenho pena de não ter esses diários hoje. Foi essa ideia de escrever diários proposto por minha tia que ficou no meu subconsciente, e a partir da década de quarenta do século há pouco passado passei a escrever para o resto da VIDA diários das minhas estadias em PORTUGAL, estrangeiro e Áfricas.

Meus primos e eu, sempre atentos às "ameaças"de nossa avó que nos solicitava a sermos bem comportados (por exemplo: Não cair ao poço, não abrir a porta da gaiola que daria a liberdade a assobiadores melros, não colher, pisar ou prejudicar de qualquer modo, por gestos ou acções, os gladíolos e outras flores de estimação, não comer frutos ainda agarrados ao seio maternal da arbórea mãe, NUNCA ASSOBIAR pois, em seu entender era a má criação mais horripilante para os seus nervos e que era um previlégio dos cativos melros e de mais ninguém, não observar de olhos esbugalhosamte curiosos as "FEIAS" AVENTURAS AMOROSAS da gata da casa com os gatarrões vadios e enamorados da vizinhança!).

Meu avô era mais complacente e acolhedor, diariamente (excepto aos domingos e feriados) esperávamos ansiosamente pelo seu regresso das lides lisboetas, onde comprava no comboio para cada neto, um apetitoso "matacão", "a tostão cada matacão, cada cor o seu paladar" como era apregoado.

Um dos meus entretimentos era caçar insectos no quintal e pô-los em buracos escavados no quintal e tapados com vidros, fazendo um jardim zoológico onde cobrava uns tostões a quem o quisesse visitar, se bem que raramente aparecia um "visitante"! Também ia desenhando animais copiando-os do livro de Zoologia de minha prima e dum velho livro de farmácia de meu avô que conhecíamos como o "Chernoviz" (julgo que era o nome do autor). Por vezes íamos caçar caracóis que minha tia ou prima cozinhavam e eram um belo pitéu para todos os da casa.

E assim fui passando esse ano, vendo só meus pais e irmãos em dias festivos ou de aniversários. Estava agora na idade "militarófila" de quase todas as crianças do sexo masculino, com o dinheiro que me deram de prenda pelo meu exame de instrução primária, comprava algumas folhas (a 20 cts. cada) de soldados de vários pontos do mundo para recortar e colar em cartolina. Lembro-me de um regimento de ciclistas militares franceses, de cenas de trincheiras portuguesas e alemãs da guerra de quatorze, em que os soldados portugueses avançavam de baioneta em riste e os alemães estavam a ser atingidos mortalmente, um regimento com um tanque de guerra, cavalaria, guarda republicana, etc. Havia soldados alemães já no tempo do HITLER, bem desenhados. Soldados de chumbo tinha poucos pois eram relativamente caros. Para ter exércitos melhores e mais a meu gosto passei a desenha-los, recorta-los e cola-los fazendo e montando peças de artilharia, cavalaria e tanques de guerra, aviões a navios.

Final Capitulo II

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domingo, 30 de Março de 2008

Capitulo II: A Vida começa a Mudar (3/04)

Meu PAI dizia, com uma realidade nua e crua, que os "seus proventos, para fazer um filho doutor, os outros não passariam de carroceiros!". Por outro lado tinha da Arte uma ideia realista de que o artista sacrificar-se-ia à miséria e fome se da Arte quisesse exclusivamente viver. Esse sacrifício era bem ilustrado por ele com a seguinte história (nunca soube se real ou fictícia) que contava: "Certo artista que nos seus tempos áureos pintava gente ilustre e brazonada, com o correr dos tempos e as reviravoltas da VIDA, para não morrer à míngua, teve que trocar a Arte pictórica por uma Arte de aliviar as dores em pés alheios, tonando-se calista. Quando em certa ocasião raspava cuidadosamente os joanetes de respeitável e arisztocrática fidalga, seus olhos cairam num quadro a óleo em que a sofredora dos pés fora em tempos transplantada com Arte para uma tela que perpectuava a sua beleza já perdida. A supracitada fregueza, vendo-o absorto a contemplar tal tela, saiu-se com esta: Gosta daquele quadro? Foi um grande artista cujo nome não me ocorre, que o pintou! O actual calista de profissão, sentiu um acesso de rubro fulgor, misto de contentamento e orgulho, como se renascesse das suas já esquecidas glórias e, num gesto teatral mas sincero, declarou:'Madame, o pintor cujo nome o tempo lhe fez olvidar, foi este seu humilde creado a seus pés prostado!'!
É lógico que para meu pai a minha pretensão de ser Artista me visse, com as agruras da VIDA, ainda não refeita da recente guerra mundial, transformar-me também num futuro calista ou outra profissão mais humilde, e, como para factos não há argumentos, depois de um ano de quarentena , eis-me transformado em aluno de escola que me transformaria em "mangas de alpaca" ou num distinto comerciante da nossa praça. A primeira hipótese seria mais provável pois costela de comerciante não tinha, em sequer de meus antepassados iria herdar tais qualidades!
Este meu período de repouso estudantil passei-o na AMADORA em casa de meus avós maternos, tia e primos. Foi por essa altura que vi, pela primeira vez, um filme sonoro. maravilhosa invenção quase inacreditável. Dizia-se que ia pôr na miséria músicos e cantores que atrás do écran davam um ambiente sonoro a quedos e não ruidosos filmes e ameaçava também destronar com uma concorrência devastadora a antiga e clássica Arte teatral!. Esse filme, que vi no salão dos RECREIOS DESPORTIVOS DA AMADORA chamava-se "Às ordens de Vossa Alteza" desempenhado por um conhecido cantor, HENRI GARAT de nome, que a preto-e-branco nos aparecia ainda um pouco fanhosamente, a cantar deliciando nossos ouvidos.
Quando apareceu o sonoro, em Lisboa (estreia em Portugal) foi num cinema da RUA DA GRAÇA, o teatro reagiu, não sei se em revista parquemayeriana, com uma canção que aconselhava o seguinte :

"Teodoro não vaz ao sonoro
Teodoro tem pena de mim!
Teodoro não vez como eu choro.
Meu querido Teodoro
Não sejas assim!"

Virando o bico ao prego, na minha natalice urbe, a canção foi transformada num reclame a aguçar a curiosidade popular a ver tal evento, produto da moderna tecnologia de maravilhar os amadorenses:

"Teodoro leva-me ao sonoro
Teodoro tem pena de mim
Teodoro não vês como eu choro
Leva-me ao sonoro,
Não sejas assim

E mais adiante a mesma canção, reclamava o filme assim:



..........Não há, não há
Quem cante como o Garat
Quem represente tão bem!......"

Não tendo o complexo das alturas e a casa de meus avós só tinha um piso, dormia regaladamente num vasto e cuidado sótão (arejado e sem as tradicionais teias de aranha ornamento típico de velhos sótãos) onde meu primo também pernoitava, cada um em sua cama.

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sábado, 22 de Março de 2008

Capitulo II: A Vida começa a Mudar (2/04)

Meu pai que, como funcionário público, não tinha férias, ia só passar connosco os fins de semana.

Durante uma das nossas férias grandes, meu irmão HENRIQUE adoeceu com uma febre tifóide. Em nossa casa toda a água do contador era fervida para se beber, havia uma panela de ferro redonda e bojuda que já tinha uma camada branca e espessa de calcáreo e era exclusivamente usada para ferver água. Meu irmão uma vez pediu à mulher-a-dias que lhe desse água, esta encheu um copo na torneira dando-lhe.. Foi o suficiente para ele adoecer gravemente com uma febre tifóide, doença que podia vir a ser transmitida aos irmãos.
Por precaução meu irmão FERNANDO foi para casa dos avós maternos, matriculou-se lá na escola primária na devida altura e esteve um ano longe dos pais e irmãos. A partir dessa sua estadia meu avô, durante bastantes anos, dava cem escudos mensalmente a minha mãe para ajudar as despesas escolares de meu irmão.

Eu fui parar a casa de uns tios em BENFICA, esse tio, cunhado de minha avó materna, era Vice-Almirante. Gostei imenso de lá estar, os filhos da prima de minha mãe, mais velhos que eu, o ZÉ MANEL e o CARLOS, tinham imensos brinquedos, revistas infantis "o ABCEZINHO" que eu lia e devorava ! Sentia-me óptimo com o tratamento e os entretimentos que tinha.
Logo que meu irmão recuperou a saúde e depois da casa ser devidamente desinfectada, minha mãe veio buscar-me. Foi com grande choradeira que eu deixei a casa que tão bem me acolheu!
Passei depois para uma escola particular nas RUA JOSÉ FALCÃO, não muito longe dum animatógrafo – o "Pathé". Aí nos intervalos escolares a professora punha-nos a fazer, na "varanda das traseiras", teatro uns com os outros.
Lembro-me que já na 4ª classe minha mãe se apavorou com as terríveis informações da mestra a meu respeito (nessa altura já discutia nas aulas o erro dos livros escolares mencionarem a presença do tigre em nossas colónias africanas que eu dizia haver só na Ásia).

Para melhor conhecer a nossa gramática, minha mãe obrigou-me a ler em voz alta as vezes que fossem necessárias para arquivar em meu cérebro para toda a VIDA as seguintes palavras que a gramática nos ensinava e fazia parte da lição que a professora nos dera para estudar: "Anastrofe, crase, inalage, síncope, sinalefa, temese, elipse, zeugma e pleunasmo". Esqueci-me do significado deste vocábulos mas ainda os recito sem me enganar nem pestanejar! Nunca compreendi bem qual o interesse da professora em me introduzir no estunto tais palavrões e o que para a minha sapiência de então, presente e futura me adviria de tal saber (hoje acho-as de certa utilidade par redigior esta Biografia)!.

Eu e meus irmãos por vezes brincávamos fazendo de três personagens: ZECAS, MANECAS e TRINECAS. Com uma das mãos personificávamos nossos heróis (os dedos anelar e médios faziam de pernas, o polegar e mínimo de braços, e a palma da mão a cara e barriga). Para outros "participantes", por exemplo um cavalo, os quatro dedos faziam de patas e o médio de cauda. O cavalo era montado pelo herói escarranchando-se nas costas da mão ( o dorso da montada) com os pés (dedo médio e anelar). Se, por exemplo, aparecesse em cena um elefante, o que no cavalo era a trazeira passava a ser a cabeça com o dedo médio fazendo de tromba movel. As aventuras que idealizávamos eram em pleno mato africano (que conheciamos pelas narrativas de nosso pai a contar as aventuras vividas pelo nosso avô paterno). O MANECAS e TRINECAS perguntaram uma vez "E se um leão te matar?" Então o ZECAS respondia com o meu ego: "Como tenho de morrer, se fosse comido por um leão pelo menos a minha morte serviria para matar a fome à fera!"


Eu aos sete anos de idade com meus pais e irmãos

Aos nove anos de idade fiz exame de instrução primária (na altura tinha deixado de existir o exame da 3ª classe, lº grau) e só uns bons anos depois iria aparecer o "exame de admissão aos liceus" na ESCOLA DO LARGO DO LEÃO, onde iniciei a minha vida escolar, fiz o exame juntamente com meu irmão mais velho mas meus pais viram-se atrapalhados com a burocracia, tiveram de pagar uma multa de 4$50 e arranjarem um documento em papel selado com a declaração de uma professora "inscrita e licenciada" dizendo eu estar apto para o exame!
Gostaria de tirar o curso de Belas Artes (herança cultural de minha mãe) mas para isso teria de me matricular no liceu (sete anos de estudo com a agravante de não haver aulas nocturnas e... uma disciplina perdida, seria o ano perdido!
Curso sem resultados práticos para arranjar emprego só por si; por outro lado não havia escolas preparatórias de Arte, as escolas industriais apenas ensinavam desenho geométrico e de máquinas.


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quarta-feira, 19 de Março de 2008

Capitulo II: A Vida começa a Mudar (1/04)

" VIDA é cheia de obstáculos. Depois de ultrapassarmos o primeiro, pensaremos no seguinte quando chegar a altura de o ultrapassar"

Pela velha mas eficiente "Cartilha Maternal" de JOÃO DE DEUS, minha mãe ensinou-nos as primeiras letras e contas pondo-nos a decorar a tabuada de modo a fazermos contas sem utilizarmos o primitivo computador digital de nossas mãos e, ao chegar aos seis anos de idade, sabendo já ler, escrever e contar, passámos meu irmão NANDO a sermos alunos, ele na primeira e eu na infantil da escola oficial ( do "Estado" como então se dizia) no LARGO DO LEÃO perto do Hospital da Estefânia.

Essa escola que depois passou a chamar-se "Escola Oficial da Republica do Chile", sobreviveu, com ligaduras metálicas nos tectos e paredes resistindo à voragem de minúsculas e reticulitérmicas formigas brancas (sempre os insectos a aparecerem desde o início da minha existência!).
Em infantis aulas modelávamos barro e eu recortava cavalos de jornais e revistas com reportagens sobre hipismo que eram mais frequentes na imprensa que hoje. Em vez de utilizar tesouras recortava com os dedos indicador e polegar de cada mão com habilidosos movimentos.


Do pátio da escola, durante o tempo de recreio, observávamos soldados (ou bombeiros?) num quartel próximo, a conduzirem pseudo-sinistrados em macas e outros exercícios, Um entretimento que alguns faziam era passar as transparentes imagens dos rectângulos de celulóide de pedaços de filmes de animatógrafo para papel sensibilizado utilizando a luz solar. Quando passei para a 1ª classe a professora punha-me a mim e meu irmão no quadro preto a ensinar letras e números aos nossos colegas que não tinham aprendido em casa com os pais, como era normal. A nossa professora adornada dum sistema piloso supra bucal era alcunhada por seus discípulos como a "Dona Bigodiça"!

A seguir meu pai matriculou-me numa escola primária de um complexo sócio-hospitalar evangélico, na RUA HORTA DO HEROISMO. A professora Dª ADRIANA pertencia à família do Embaixador Suiço, e viviam num palacete da AVENIDA ALMIRANTE REIS. Foi nessa escola que fiz o meu primeiro ditado ( 7 erros) do livro de leitura , cujo artigo tinha um desenho de uma caixa com soldadinhos de chumbo. Fazia frequentes vezes desenhos no quadro preto que a professora gostava de ver. Certa vez desenhei uma cena de casamento com os noivos tradicionalmente enfarpelados dirigindo-se para a igreja à frente do cortejo dos convidados. Uma vez convidou-me a ir a sua casa onde almocei com a família dela . Fiz a seu pedido um militar a cavalo em cartão recortado com um braço articulado pondo-o a fazer continência.

Em certa ocasião minha mãe conversando com minha helvética professora reparou num minúsculo animal que passeava no seu vestido. Inoculou-lhe o tifo de modo que num curto período de tempo foi mortalmente vítima por esse parasita! Foi a minha terceira "experiência" com insectos ( a primeira as moscas quando nasci, depois a formiga branca na primeira escola que frequentei e agora um piolho assassino).

Foi ao anunciar em primeiríssima mão este caso à filha da minha vizinha do lado, a GASTINE que tinha a minha idade, recebi uma boa lição de civismo: "Uma professora é como se fosse uma mãe nossa, devias mostrar tristeza pela morte dela!" A nova professora que a substituiu incutia-nos que fazer erros nas contas ou escrita era um "pecado" que devíamos evitar. Meus pais perante tal professora religiosamente tão fanática, mudou-me de escola.

Eu era ambidestro por natureza, desenhando ou escrevendo com qualquer das mãos. Tive pena de na escola me terem corrigido a usar só a mão direita!.

A partir dessa altura íamos anualmente, nas férias grandes para a ERICEIRA, onde meu avô alugava por toda a época casa. Durante os anos de estadia na praia eu ia apanhando conchas e búzios que guardava e peixes que desenhava.
Na praia jogava-se muito o prego, espetando-o por vários modos na areia. Eram grandes pregos de construção civil que se vendiam por todo o lado. Alguns anos depois foram substituídos por pregos multicolores de vidro e. actualmente desapareceram extinguindo-se esse "desporto"!.
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domingo, 9 de Março de 2008

Capitulo I: A primeira Infância (5/05)

Talvez também se deva ter em consideração que, quando nasci, ao ver as moscas a esvoaçar, o meu interesse pela Zoologia apareceu pela primeira vez! Comecei pelos cavalos, depois interessei-me, já a caminho da adolescência, por outros mamíferos e insectos a cujo estudo passei a dedicar grande parte da minha VIDA.

Foi mais ou menos por esta época que fiz uma descoberta que me deixou atónito: Encontrei minha mãe a dormir, não me lembro como, mas muito admirado concluí "que as mães também dormem, julgava que isso só acontecia ao Pai e às crianças" De minha mãe herdei ainda em sua VIDA, a tendência para o desenho. O primeiro material que usei, inventado por mim, foi utilizar paus de fósforos dispondo-os de modo a desenhar com eles casas, cavalos e cães!

Os meus primeiros desenhos zoológicos feitos com fósforos. Um cavalo e um cão

Quando ia com a família a casa de minha tia ALICE (irmã de meu pai), a primeira coisa que ela fazia era dar-me uma caixa de fósforos e, durante todo o tempo da visita, eu lá me ia entretrendo a "desenhar" com os pauzinhos.

Gostava muito de ir ao circo sobretudo para apreciar os cavalos amestrados. Em jornais e revistas que me vinham parar às mãos, contemplava as fotos e desenhos dos cavalos. Ao aproximar-se o Natal, guardava os anúncios (sobretudo do GRANDELA e CHIADO) que reclamavam com figuras desenhadas os brinquedos de seus armazéns, os antecessores dos actuais centros comerciais.

Passávamos sempre o verão em casa de meus avós na AMADORA onde iamos também em datas festivas: Natal, Páscoa e festas de aniversário da família. Minha mãe contava que eu, uma vez que minha tia disse "não gostar de mim" eu respondi logo "não m'impoto as rapaligas xão axim, axim"!

O Carnaval era passado em nossa casa lisboeta com minha mãe a fazer desde a vépera saquinhos de arroz, milho e farinha. No domingo gordo aparecia a família da Amadora primos de minha mãe de Benfica. Em nossas janelas assistia-se ao burburinho da rua animado com troupes de instrumentos de corda, sinulacros de touradas com toureiros em finjidos cavalos e toirinhas com uma roda central, um par de cornos e duas pegas, xéxés (velhos entrudos), vestidos de trajes antigos com chapéu de dois bicos, um pau encimado por um retorcido corno de carneiro e uma grande faca que com sua pança almofadada iam assustando transeuntes e pedindo uns tostões. Por vezes apareciam ciganos com ursos amestrados dançando e sempre seguidos de alguns cães que desconhecendo tal bicharoco arremetiam ladrando. Era proibido nessas alturas andarem pela rua pessoas vestidos com trajes do sexo oposto.

Muitos carros enfeitados que regressavam do corso das Avenidas da Baixa, lançando e sendo bombardeados com saquinhos e serpentinas das janelas da rua. Várias partidas como simulacros de roubo de chapéus de feltro, garrafinhas de mau cheiro atiradas aos transeuntes, letreiros colocados nas trazeiras dos fatos sem conhecimento do visado, tudo isto transformava o Carnaval num festejo sem graves consequências.


Com 5 anos de idade fomos os três mascarados por minha mãe.

Eu de cigana com travessa nos cabelos e castanholas na mão, o NANDO de bobo e meu irmão mais novo o RICO, de palhaço rico.
Lembro-me que quando de manhã fomos para a Amadora, na estação do Rocio havia quem não acreditasse quie eu era um menino. A VIRGÍNIA, mulher-a-dias de nossa casa, quase escandalizou minha mãe ao querer-me baixar as saias para provar anatomicamente que não era uma menina. Meu irmão vestido de bobo com um par de chifres encimados por um guizo, era toureado por miudos como se um touro autêntico fosse!

Final Capitulo I

domingo, 2 de Março de 2008

Capitulo I: A primeira Infância (4/05)

Meu irmão FERNANDO (familiarmente "NANDO"), traquina como todos os da sua idade, talvez mais irrequieto que o normal, mercê da clã bimaternal de nossa avó que achava que a sua entidade familiar era ser uma "super-mãe", pois, em seu entender. uma avó era uma mãe em "duplicado" (duas vezes como afirmava).
Contava-se que meu irmão ultrapassou as raias quando desfez uma série de bolas de carvão que minha avó costumava fazer e previamente o avisou não mexer nelas pois se as estragasse "ia-se a ele e a maior posta que lhe deixava eram as orelhas (ameaça que fazia amiudadas vezes aos netos) e...acabou por ver suas bolas reduzidas a uma massa informe! Talvez meu irmão estivesse interessado em saber como sua Avó conseguiria reduzir suas orelhas a uma ínfima posta!

Sentiu-se destronado pelo meu nascimento pouco antes do seu segundo aniversário, o que aliás me veio a acontecer a mim quando nasceu meu segundo irmão. Assim ter posto em plano inferior meu irmão vim depois a saber quando isso custa quando nasceu meu segundo irmão. Minha mãe não seguiu a minha sugestão de pôr o bébé no poço do nosso quintal logo que nasceu! Alguns meses depois do meu nascimento e mal nutrido pela fraca qualidade do leite materno, minha alimentação passou a ser por biberão de bacilosa e láctea farinha búlgara, então muito em voga, que contrariando as instruções da embalagem me transformou num franzino coleccionador de doenças parecendo mais uma conjectura da Natureza para me riscar do mundo dos vivos! Assim a minha primeira colecção biológica foram micróbios e vírus. Um deles, doença cujo nome nunca consegui averiguar, fazia com que tudo que entrava na minha boca saisse pouco depois pelo orifício anal! Fui também ameaçado por uma meningite que felizmente não conseguiu os seus intentos.

Arrastando a minha definhada existência, vi-me transferido, sem sequer ter sido consultado sobre o caso, para um segundo andar direito na RUA MORAIS SOARES nº 95 em LISBOA (antiga "Estrada da Circunvalação"). Vivi nesta casa com meus pais e irmãos trinta e dois anos! Este novo poiso foi arranjado por troca com uma família PINTO ( o primeiro homem de óculos pretos que eu vi) casado e com uma filha corcunda, EMA de nome,. que passara a viver na casa de meus avós no fogo onde vivi os primeiros três meses de VIDA.
Pelas janelas via quase permanentemente desfilar, viaturas hipomóveis e electromóveis, sendo frequente de dia a passagem de lúgubres cortejos fúnebres (em carretas antropomóveis e hipomóveis, estas transportando defuntos da alta sociedade; quando militares, iam em armões de artilharia) . Este trajecto findava no cemitério do ALTO SÃO JOÃO não muito longe de nossa casa.

Assim fui crescendo e me desenvolvendo mais psiquicamente que fisicamente, tardio ainda na minha bípede locomoção. Já ultrapassava alguns anos de gatinhação sem melhorar com os tratamentos no HOSPITAL DE DONA ESTEFANIA, onde constantemente minha mãe me levava com meu irmão a acompanhar-nos, sem conseguir fazer a minha locomoção pedestre.
Por fim alguém aconselhou-a darem-me banhos do mosto. Nas tabernas vizinhas não se fazia vinho mas indicaram haver possibilidade de me banharem na "QUINTA DA PERNA DE PAU", antro de "xungaria fadista" no ARIEIRO.
Alguns banhos do vapor da fermentação do vinho foram suficientes para me porem a deambular bipedicamente. Não há dúvida que o rifão "ao menino e ao borracho põe-lhe Deus a mão por baixo" deu resultado no meu caso, contrariando a quadra popular:

"Era o vinho meu Deus era o vinho
Que nasce da cepa torta
A uns faz perder o tino
A outros errar a porta"

Com tal vinícola sauna, passei de quadrúpede a bípede para o resto da minha VIDA tendo já calcurriado pelo mundo fora a ruas, campos, países, continentes e ilhas adjacentes d'aquém e d'além mar!.Estes banhos foram a minha primeira e mais antiga lembrança que ainda hoje perdura. Na tal adega deram a meu pai um cartaz com um boneco desenhado a cores, que depois de recortado e colado em cartão foi o meu enlevo! Vencido o raquitismo veio-me a tendência de arquear a coluna vertebral que me transformaria num dromedário humano, Andei 3 meses por indicação médica com uma tábua afivelada às costas que evitou tal defeito e me curou de ser corcunda.

Não há dúvida que a minha teimosia em viver e me livrar de tanta contrariedade física, foi uma virtude que me tem feito triunfar pela VIDA fora! Esta teimosia começou quando minha santa mãe chegou a ponto de esperar pelo "meu último suspiro" que graças a DEUS até agora ainda não chegou! O ser "teimoso" recomendo a quem quiser triunfar na VIDA.

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domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Capitulo I: A primeira Infância (3/05)

Meu pai, honrado e modesto funcionário público, trabalhando de dia para comer de noite, segundo dizia, diariamente se deslocava de comboio até LISBOA e trabalhava no Ministério da Guerra, no TERREIRO DO PAÇO (Praça do Comércio).

Lembro-me ainda dele contar uma história passada com dois colegas. Um deles era acanhado e avarento por natureza, quando almoçavam (o horário de trabalho era das 11 às 17 sem hora para almoço, mas era costume trazerem de casa um farnel que lhes substituía o almoço. O tal sovina abria parcialmente a gaveta da sua secretária e lá ia comendo o seu "almoço" sem dar muito nas vistas. Outro colega com tendêndias para poeta, um certo dia quando o acanhado se ausentou por momentos, foi à sua secretária ver qual seria a sua refeição. Encontrou 3 pêras, tirou uma e deixou lá os seguintes versos:

"Três pêras
Que grande orgia
Que o meu amigo prepara,
Para pessoa tão avara
São pêras em demasia!
Comes três pêras num dia

No outro a seguir jejuas
E como te aprepicuas
A ter uma dor de barriga
Para te evitar tal espiga
Como uma e...
...Ficam duas!"

Minha mãe, cuja requintada e austera educação própria da época, teve de desistir da sua tendência artística, só porque essa Arte era simbolizada pelas ancestrais obras primas (Vénus de Milo e Apolo) cujas réplicas estatuárias se encontravam no hall da SOCIEDADE DE BELAS ARTES, em LISBOA, e ao serem vistas por meus avós maternos quando visitavam uma exposição, acharam dum mau gosto e o supra-sumo da indecência, o precursor da pornografia que hoje toda gente vê sem corar! Assim apesar de ter tido bons mestres (ROQUE GAMEIRO e ALBERTO DE SOUSA) sendo autora de óptimas aguarelas e desenhos, que actualmente conservo em meu poder, optou por estudar francês e tocar piano, passando depois de casada a ser "doméstica em sua casa", tratando da casa, dos filhos e do marido.

Minha avó materna, conhecida por "Dona Anica", senhoria e vizinha da casa onde nasci e habitava, era o tipo de "ditadora-chefe do clã" a quem meu avô (que tratava pelo apelido "OLIVEIRA" por não gostar do seu nome próprio "DOMINGOS"), tinha de ser o primeiro a obedecer-lhe.

Meu avô materno, segundo. ROQUE GAMEIRO

Meu avô que se intitulava "membro da Confraria de Nossa Senhora de Não-Te-Rales", era enfermeiro quando se casou, no tempo de deitar bichas (sanguessugas), usar arnica, tirar dentes e fazer sangrías. Passou a ser funcionário superior da COMPANHIA DE TABACOS em LISBOA. Quando minha mãe o visitava connosco, mandava um contínuo comprar para nos oferecer colares de pinhões que comíamos com prazer.


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domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Capitulo I: A Primeira Infância (2/05)

Nasci segundo filho (poucos anos depois era o do meio), em pleno inverno, na metade esquerda da casa de meus avós ("Vila Heloísa", Rua 1º de Dezembro, 35)
A terra em que passei a habitar, com meus pais e irmão, era na altura uma modesta povoação chamada AMADORA (coordenadas de Greenwich: 37.45 N, 9.14 W) que um dicionário de então descrevia como "Povoação importante nos arredores de Lisboa, freguezia de Benfica, Campo de Aviação Militar sede de grupo de esquadrilhas".
Começou por se chamar PORCALHOTA. Existem várias versões da origem deste topónimo: Uma delas conta que El-Rei (qual?) andando com alguns fidalgos a caçar, perdeu-se. Depois de muito cavalgarem em terrenos desconhecidos e já cheios de sede, encontraram uma modesta casota onde pararam para beber. Habitava lá uma velhota andrajosa e pouco asseada, que lhes mitigou a sede. Depois de refrescados, Sua Magestade saiu-se com esta: "Que bem me soube a água da porcalhota!" A partir de então o local passou a ser conhecido por "PORCALHOTA"! Outra versão, talvez menos fantasiada, relata "Esse topónimo procedia do dono dessas terras, Vasco Porcalho, também alcaide de Vila Viçosa, Em 1383-1385, este fidalgo como muitos outros, da velha nobreza portuguesa, apoiou D. João de Castela como rei legítimo, o que mais tarde o obrigou a fugir do reino. Herdou-lhe as propriedades a filha fidalga a quem as gentes chamavam Porcalhota! Ficou assim a zona a chamar-se "Terra da Porcalhota " (VALE MOUTINHO,2003,"Lendas de Portugal").

A mudança do nome para "AMADORA", foi feita no começo do século passado por proposta de intelectuais moradores na região (DELFIM GUIMARÃES, ROQUE GAMEIRO, ALBERTO DE SOUSA e outros). Tive conhecimento por uma amiga antiga, IRENE AMADOR, cuja família vivia na PORCALHOTA, que o apelido AMADORA foi o escolhido para a mudança do nome da terra. Na minha juventude ainda chamavam PORCALHOTA à zona entre as cancelas da linha férrea até às proximidades da FALAGUEIRA.
Hoje já sem aeródromo militar ( eu, meus irmãos e primos, viamos diàriamente do quintal de meus avós, durante muitos anos, o evolucionar dos aviões em exercício, com biplanos de uma hélice, chamados "tiger mouth" e aviões de instrução com a carlinga em forma de barras de cama infantil, rodas parecendo "carrinhos de linha" a que chamávamos "aranhas"). Desapareceram também os moínhos metálicos de tirar água de poços nos quintais de quáse todas as vivendas ("vilas").
AMADORA passou a ser uma enorme cidade, o local onde nasci eu, meus irmãos e primos, é hoje a freguezia VENTEIRA, este nome mais antigo historicamente que a PORCALHOTA.

Desde que nasci até que passou a ser Vila e depois Cidade, pertencia ao Concelho de OEIRAS, Comarca de SINTRA, região escolar de TORRES VEDRAS e militar de SETUBAL!


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segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Capitulo I: A Primeira Infância (1/05)

"Quando se nasce, despojamo-nos, como todos, do primeiro vestuário: a maternal placenta..
Quando morremos, a mortalha com que certamente nos cobrirão, será diferente das outra:
Um símbolo do que fomos na VIDA!"

A VIDA duma pessoa poderá ser um autêntico romance, talvez difícil de relatar de modo a tornar-se numa obra literária de interesse
Quando começa a nossa VIDA?
Quando "sentimos" pela primeira vez a noção da nossa existência?.
Os nove, ou raramente pouco menos, meses em que vivemos na Madre não deixarão nada em nosso ego que nos venhamos a lembrar posteriormente?
Estudos e experiências recentes parecem mostrar que o nosso cérebro, quando estamos a evoluir metamorfosicamente a caminho do nosso "nascimento", não é um órgão vazio mas que vai sendo preenchido com factos, sensações e até traumas que ficam registados e poderão vir a ser "lembrados" pela nossa VIDA fora! Recordo-me das reacções de meu filho, antes de nascer, mexendo-se no interior da madre, quando minha mulher no cinema, se impressionava com algumas cenas do filme. Estas observações parecem ser muito antigas pois, como vemos na BÍBLIA: Novo Testamento (S. LUCAS,I,41) "...ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre (observação com dois mil anos de idade!..."
Só depois de vermos a "luz do dia", ao nascermos, passamos a ser "oficialmente" mais um habitante do planeta TERRA e consideram-nos um entidade com nome, família, data e local de nascimento! Interrogações, interrogações nada mais que interrogações. Assim sem nada termos conhecimento deste primeiro período da nossa VIDA, ousamos começar a descrever (ou antes "escrever") a nossa VIDA desde o início!

Tudo começou quando, quase uma dezena de meses antes de nascer, juntou-se um dos cromossomas impares de que meu pai era portador e que faltava na minha mãe para aparelhar o seu cromossoma impar, junção que contribuiu para a multiplicação das primeiras células de minha existência. Começou. logo que um espermatozóide paternal alcançou o alvo, à frente de milhões de concorrentes, o óvulo que se fechou, não permitindo a entrada de outros, que pela sua inutilidade desapareceram! Foi assim o começo da minha VIDA, idêntico ao de quase todos os seres vivos! Fui-me transformando num embrionário feto que, com a multiplicação progressiva de células, passou a desenvolver-se dentro da maternal placenta.

Isto passou-se aproximadamente de Maio a Agosto de 1920, tornando-me numa forma ápode com cauda e dois órgãos cefálicos que se transformariam em pares de olhos e ouvidos. De Agosto a Novembro foi a vez dos membros anteriores e posteriores começarem a desenvolver-se, a cauda reduziu-se e os olhos e ouvidos desenvolveram-se. De Novembro de 1920 a Fevereiro de 1921, apareceram os dedos das mãos e pés, boca, etc.,tudo o que um nascituro necessita para triunfar e viver o resto da sua VIDA já externamente à luz do dia!
Esforcei-me com êxito depois de rodar na placenta a ter a cabeça preparada a ser a primeira parte do meu corpo (a mais volumosa) a ser expulsa, auxiliado pelo esforço materno, a ver o mundo que nos rodeia e libertar-me duma VIDA de agradável prisioneiro. Este facto, o mais importante da minha existência, ocorreu a uma quinta feira, depois do Carnaval, às 17 horas do dia 11 de Fevereiro de 1921.


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Introito a Rimar

Recordações de Vida:

Escreve antes que as esqueças!

"Vive bem o dia de HOJE, pois amanhã ele irá
aumentar o PASSADO e diminuir o FUTURO"

Contar-vos minha VIDA
Onde vivi tal ventura
Mas de forma reduzida
Aqui nest'apontamento
Da minha VIDA em leitura
Dar-vos-.ei conhecimento!

Datas, nomes topográficos
Regiões e personagens,
Que aqui irei citar,
Prédios, ruelas, cimento,
Tudo isso irei narrar!
Essa VIDA salutar,
Abraçada bem à Natura
Com sol, chuva ou vento,
É época que não perdura
Impossível faze-la voltar!
Assim o qu´irei narrar
Recordando a minha VIDA
Tão rica e bem vivida
É mundo que foi embora!
Pois uma guerra acabada,

Outra mundial violenta,
Trouxe morte, não nos deu nada
Nos tristes anos quarenta,
Já não é o qu'era outrora!
O mundo em que nasci,
Em que cresci e vivi,
Era mundo sem plástico,
Sem átomos na consciência,
Sem poluição também,
Satélites rodando por aí,
Nem viagens pelo'spaço
É um mundo que já não vem.
O que hoje achamos prático,
Computadores,internet
Que trazem tant'exigência,
E em nossa VIDA se mete,
Deixou de ser infantil,
E nada tem e simpático,
Ultrapassa a inteligência


É O MUNDO DO ANO DOIS MIL!