Capitulo IV: Chegou a vez de Trabalhar (1936-1947) (1/03)
Firmas onde trabalheiÀ esposa MADI DAVI RAMBIZEWSKY levava eu a sua casa (RUA ALEXANDRE HERCULANO) volumes de compras. Na mesma casa da IMPEX havia noutras salas uma simpática decoradora alemã MAY VERA LEROY com uma clientela muito aristocrática, vendendo modas e mobiliário de salão. Desenhei-lhe cadeiras por originais fotográficos. Uma sua modesta empregada, da minha idade, ADÉLIA MONTEIRO de nome, era uma assidua leitora da revista "Guitarra de Portugal". Lembro-me duns dos fados começar assim:
"A gatarrada infernal
Não me deixa socegado,
Foi montar seu arraial
Em cima do meu telhado!"
Outro fado era sobre um ralaça que tinha inventado um máquina que tudo fazia, bastando carregar apenas num botão! Pediu a outro ralaça para ser seu sócio. Este recusou dizendo dar muito trabalho o carregar no botão! Quando saí da IMPEX, enchi-me de coragem e escrevi a minha primeira dclaração d'amor a essa ex-colega. Até hoje ainda não tive coragem de lá ir saber a resposta! Nas horas vagas ia desenhando bicharada em cadernos de papel almaço. Tive também a oportunidade de mandar vir de uma livraria de PARIS, a 4cts o franco, o meu primeiro grande livro de animais, cujo anúncio vira num velho número do "Lectures pour Tous", tratava-se de "Les Animaux vivants du Monde", na época considerada a melhor obra de divulgação zoológica. Comprei apenas o volume dos mamíferos (um fascículo por mês).
Nessa ocasião ainda havia galegos (os chamados "moço de fretes") a fazerem pequenos e grandes transportes. Ao começo da RUA DA EMENDA encontrava-se sempre um que esperava dormitando apoiado com a corda do seu ofício, num gancho pregado na parede. Utilizei-o várias vezes a pedido do patrão. No caminho para a escola
Do meu ordenado retinha mensalmente 20$00, que me dava para comprar mensalmente por 6$00 uma revista do Jardim Zoológico de Londres "ZOO, Animal and Zoo Magazine", os restantes 4$00 davam para ir quinzenalmente ao cinema (tinha próximo de casa o "Max Cine" e o "Cinema Império (ex-Pathé"), onde filmes da SHIRLEY TEMPLE, do TARZAN, Bucha e Estica, etc.) me deliciavam cinefilamente.
Uma das lições que aprendi com o meu polaco patrão era que a honestidade poder-me-ia ser prejudicial! Certa vez deu-me dinheiro para arranjar um taxi quando fui buscar uma pesada encomenda aos correios da RUA DA PALMA. Como aguentasse o peso do volume, resolvi regressar de elétrico indo depois do LARGO DE CAMÕES ao escritório (RUA DA EMENDA), poupei-lhe algumas dezenas de escudos que honestamente lhe entreguei. Daí por diante, mesmo que o peso fosse maior, só me dava a quantia necessária para o eléctrico! Fiquei a pensar que se tivesse guardado para mim "desonestamente" a diferença do pagamento do táxi e do eléctrico, não teria vindo a ser fisicamente prejudicado!
A minha hora de saída nem sempre era respeitada, no meu horário das 9 às 18 horas. Com o ir jantar a casa de elétrico e depois ir a pé da RUA MORAIS SOARES ao CASTELO (via CALÇADA DO POÇO DOS MOUROS, PENHA DE FRANÇA, GRAÇA e S.TOMÉ, três quartos de hora a caminhar) via-me aflito para não chegar tarde às aulas. Assim em Outubro de l937 (dezasseis anos de idade), no mesmo ano em que comecei a trabalhar, demiti-me. Apesar do patrão ter dito a meu pai que depois de algum tempo de trabalho me passaria a dar 100$00 de ordenado apenas me aumentou de 70 para 75$00 e ainda fui admoestado por não lhe ter agradecido esse aumento! Desculpei-me "dizendo que por ter sido tão pouco não tinha dado por ele!"
Continua...
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